DOGMA 35

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PROPOSTA #1

SINOPSE
    O bairro do Arco do Cego é, como já referimos, um local de contrastes. É um local calmo e ao mesmo tempo agitado: jardins silenciosos e horas em que ouvem apenas os pássaros e alguns carros, pátios barulhentos à hora de intervalo do liceu quando se ouvem crianças a brincar. Sons contrastantes. Pessoas diferentes, cores diversas, espaços diferenciados. Idosos sozinhos e calados que deambulam, grupos de jovens animados que percorrem as ruas num passo rápido. A calma e a pressa. Quem não tem compromissos, e quem tem onde estar e horários a cumprir. Solidão e companhia. Convívio e abandono. A agitação da saída de manhã e do regresso ao fim da tarde, e a paz das restantes horas do dia. O mesmo se passa nas casas, prédios ou vivendas. Habitações cheias de gente e habitações desertas, janelas de onde se ouvem conversas e janelas permanentemente fechadas. Prédios onde vivem famílias e casas onde alguém mora sozinho e por vezes nem sai a rua. Contraste entre faixas etárias. Até as cores contrastam, cores vivas e vibrantes, e cores secas e desgastadas. Cores alegres e cores neutras. Fachadas renovadas, pintadas recentemente, arranjadas e novas; fachadas velhas, com a tinta estalada e marcas do tempo. As ruas demostram esta diferença, chegando até a haver ruas nas quais do lado direito se vê cor abundante e do lado esquerdo predominam tons pastel. Há ruas estreitas que se opõem a praças e jardins amplos. Espaços abertos de convívio e espaços fechados de deriva. Por outro lado, a tradição e a modernidade. A renovação e a história. É visível este contraste na sede da Caixa Geral de Depósitos, que limita o bairro: a antiga fábrica de cerâmica da qual resta uma chaminé e o grande edifício de traços modernos que hoje se ergue neste local. 
    Este bairro é um sossego em demasia em certas horas, paira no ar um vento cheio de nada, uma passividade, um comodismo. Como se os habitantes se tivessem conformado com tal quietude que nem se esforçam por alterá-la, por dar vida ao local onde vivem. Habituaram-se a este bairro pacato, habituaram-se a uma rotina monótona, habituaram-se a um bairro onde absolutamente nada se passa mas que preserva a segurança aparente de que todos gostam. Neste sítio é como se o silêncio tivesse, ao longo do tempo, definido a a maneira de estar e de ser dos que o habitam. 
Este facto foi motivo de revolta da nossa parte. Como poderia um bairro, com uma história tão rica, uma localização tão privilegiada, um potencial imenso, ser apenas uma aldeia calada no meio da cidade de Lisboa? Foi-nos difícil conhecer o bairro pelo seu silêncio, pela falta de abertura ao mundo exterior, pelo medo do estranho. Pretendemos então, de certo modo, provocar. Já que não o conseguimos fazer naturalmente, tentámos forçar uma ação, uma reação por parte dos moradores. Poderá parecer uma mera brincadeira, mas tudo teve um propósito. Inserir uma personagem estranha no bairro e perceber como as pessoas reagiriam, ou não reagiriam. 
    O nosso filme transmitirá, assim, por um lado os contrastes que captámos e as dualidades referidas que encontrámos no bairro ao longo de várias visitas e explorações. Por outro, retratará a pequena intervenção que fizemos de modo a acordar o bairro, a despertar algum tipo de questionamento, a provocar reações que há tanto têm estado paradas. Pessoas que se habituaram a um bem-estar e a uma passividade num local parado onde nenhuma novidade surge, vão deparar-se com um elemento estranho, exterior ao bairro, que parecerá uma mera piada mas será um meio para conhecermos melhor os indivíduos através da forma como reagem.




VOICE OVER
    Sob um clima melancólico, vazio, sem nada para contar encontramos o bairro do Arco do Cego. Pertinente será dizer-vos que a sonolência e a apatia se instalam quando deambulo pelas ruas de um bairro adormecido. Vejo um homem de idade sentado num banco de jardim que à sua maneira se inclui no silêncio do espaço, como se aquela ausência de qualquer atitude ou acontecimento se tivesse colado ao seu modo de estar. Talvez este facto lhe agrade, talvez não. Talvez a sua vida de 30 anos neste sítio tenham mudado a sua personalidade, talvez essa pequena eternidade o tenha acalmado, lhe tenha retirado a a euforia da vida e o entusiasmo pelos dias de hoje. Porém, para mim, esta comodidade não é suficiente.
    Entro num dos dois cafés do bairro e sou praticamente afastado por um vento cheio de nada. Sem clientes, sem sem o tilintar das colheres nas pequenas chávenas de café, sem os risos repentinos de conversas cúmplices entre amigos, sem vida, sem nada que me mostre o conceito comum de aquilo que é um bairro.
    Os jardins são o primeiro local que me transporta para uma mudança. É estranho compreender que se me sentar num dos bancos dos jardins sou confundido com dois mundos que nada têm em comum: atrás de mim, fora dos limites do bairro, capto um ruído imenso, um desassossego incansável uma agitação própria, um cruzamento de ações e pensamentos, e à minha frente, a uma realidade completamente distinta, na qual o maior momento de agitação se remete para o voo de um pombo.

   Ao avançar para dentro do bairro começamos a perceber que nem tudo é igual. Existem espaços de concentração que de distanciam um pouco do conjunto calmo do bairro. Em certas horas, a praça central em frente ao liceu oferece-nos um ambiente preenchido com gerações e atitudes diferentes. A vida que nasce num local é preservada e agarrada pelas pessoas que o partilham. As crianças são sem dúvida um poço infinito de vida, onde quer que estejam tem sempre uma atitude que se faz sentir presente. Mas notem que assim que as pequenas vidas se afastam, afasta-se também a animação do bairro, voltamos a um local morto, apático. O som desvanece, e o movimento também. Envolve-me uma solidão de novo, como se o bairro fosse todo para mim, e é demasiado.

    Mas, ao contrário do descanso que a maior parte do bairro mostra, a igreja é uma força da natureza. É completa de uma paróquia ativa que todos os dias trabalha para criar dinâmicas novas que proporcionem ao bairro conceitos que se foram distanciando bastante: a noção de família, de solidariedade, de partilha, de amor ao próximo. São inúmeras as tentativas para fazer renascer o espírito amigo e cúmplice do bairro do Arco do Cego, porém, o pequeno dormitório deserto não parece corresponder, sendo que a população que o habita demonstra o seu descontentamento e nota, ainda o enormíssimo contraste entre o antigamente e o hoje em dia. Com o exemplo da paróquia de Sao João de Deus, o meu papel só poderia ser de empreendedor. Marcar a diferença e intervir no bairro tem que ser uma boa solução. Destabilizar a vida rotineira daqueles que se acomodaram ao silêncio e avançar como personagem para um sitio que até ali era pouco, poderia suportar a minha intenção. Invoco assim uma intervenção, uma provocação. Quero e pretendo incomodar, fazer estranhar, ser estranho, mostrar que as coisas que têm que mudar. Vou tentar que a apatia não me envolva, não quero ser mais um a seguir o caminho do adormecimento. Não quero que este bairro corra para o abismo do esquecimento, não quando tem tanta história para contar.
    O bairro do Arco do Cego tem sido para mim um local de dificil conhecimento. A calma o sossego fazem com que todo o contato com quem pouco frequenta o bairro seja complicado. A minha intenção foi criar uma dinâmica que mostrasse o melhor que o bairro tem. No início, para mim não tinha qualquer ponto de interesse, não havia nada que puxasse por mim, mas pensar em pequenos detalhes como a zona do bairro ou a hora a que visitava o bairro tornaram-se aspetos de extrema importância. No entanto, só consegui adquirir estes conceitos, após muitas idas ao bairro, muitas conversas, muitas reflexões. É sempre complicado criar empatia com alguém que não faz parte daquele ambiente, que nasceu e cresceu com muitos valores diferentes dos nossos. A minha ação podia realmente ser um contraponto ao caminho que o bairro tinha tomado até hoje. Numa primeira abordagem podia ser vista como um escape, uma brincadeira com a minha falta de conhecimento, mas não foi de maneira alguma. Fundamentalmente, foi um excelente meio para ver o bairro de outra perspetiva.

    Pensar e questionar o que nos rodeia é a base para o começo de cada projeto. A minha atitude tem que ser esta em todas as situações. Há que saber escolher os melhores momentos para poder ser objetivo, para intervir e evoluir tanto como aluno, como pessoa. Por vezes não é de todo positivo fazer juizos de valor sobre alguém, se o nosso objetivo é, com esse alguém, criar uma relação. Saber colocar os conhecimentos e opiniões de lado é muito importante quando nos encontramos perante um confronto direto, pelo que devemos fazer a reflexão desses valores, mais tarde, em, por exemplo, momentos como este, quando revejo um pouco do meu trabalho e reflito como identidade, sobre o que fiz. Não sinto que errei com o bairro, apesar de todos os juízos e adversidades. Admito ainda que o acaso trouxe consigo fantásticas surpresas que não foram nem pensadas, nem explicadas, nem prepositadas, apenas aconteceram, enriquecendo (demasiado, entenda-se) o meu mergulho num bairro tão pacato, o que me deixa com o seguinte dilema: será que forçar os acontecimentos estará de alguma forma errado ou poderá ser visto como uma opção às barreiras que se colocam no caminho?





PROPOSTA #2

GUIÃO
Title: Dogma 35: Haverá espaço para nós?
Credit: escrito por trinta e cinco
Author: trinta e cinco
Source: história inspirada no filme Idioterne (ou Dogme 2) de Lars Von Trier, 1998
Draft date: abril, 2015
Cast: Ana Marta Saraiva, Mariana Pinhal e Sofia Grilo
Camera: Mafalda Mota
Editing: Mafalda Mota
Contact: fbaul.arcodocego@gmail.com

   

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Aparece imagem como frontispício do filme, do Dogma 95, para fazer referência ao Manifesto em que o filme se insere. 

Segue-se uma imagem com o título do filme, de preferência uma filmagem do nome escrito em algum lugar, à mão.


#1 CAFÉ BARROSÃ
Entra o grupo de idiotas no café, para pedirem ao/à empregado/a, de forma fora do normal, um par de meias, soando convictos de que era ali o sítio certo. Após se aperceberem de que o local é um café, um dos idiotas pede um café, à medida que os outros se vão sentar, em silêncio. 
Ouve-se apenas silêncio na mesa do grupo de idiotas.
Passado um período de tempo, em silêncio (o suficiente para deixar o café esfriar), o grupo de idiotas solta uma gargalhada tremenda, fazendo parecer que a sua loucura atingiu o auge. Depois, como se nada se tivesse passado, abandonam o local, deixando em cima da mesa o dinheiro do café (que acabaram por não beber).


#2 ENTREGA DE JORNAIS
O grupo de idiotas distribui os jornais do bairro pelas pessoas com que se vão cruzando, ao mesmo tempo que emitem sons e fazem movimentos estranhos, quase que obsessivos. 
Este elemento da construção do filme é o único de interação direta com os habitantes ou indivíduos que passem pelo bairro, pelo que o choque será muito mais intenso do que nas outras intervenções. 


#3 RUAS
O grupo de loucos corre e grita ao passar nas ruas das casas, ou então comporta-se obsessivamente entre as casas.


#4 IGREJA
Mostram-se comportamentos obsessivos e loucos nas escadas, desde subir e descer efusivamente a sentar e contar as estátuas ou as pedras que compõem a igreja. 


#5 LICEU
O grupo de idiotas senta-se no recinto em frente ao liceu, apenas. Solta gargalhadas ou gritos de vez em quando, do nada. Podem, eventualmente, levantarem-se e darem uma volta sobre si próprios, e voltarem a sentar-se. 


#6 ESTÁTUAS DE BRONZE
Mostra-se uma euforia tremenda com o espaço do mercado antigo, nomeadamente com as estátuas em bronze pelo que o grupo de loucos dança e grita e explora o espaço, como se fossem crianças de 5 anos outra vez.



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# TEXTO GERAL DA ENTREVISTA

Já se dizia no filme de Lars Von Trier que ser um idiota é um luxo, mas também um passo em frente. Os idiotas são um povo do futuro.

Não foi fácil entrar numa personagem que traz tanto choque para a sociedade. Recebemos olhares de desprezo e de desconforto mais do que de tentativa de compreensão. Ouvimos sermões de desconhecidos que nos tentaram diminuir a nós e às nossas atitudes, como se a incapacidade mental que adoptámos não permitisse que vivêssemos entre eles, do mesmo modo, acrescentando se calhar apenas a excentricidade. 

Também não foi fácil lidar com as pessoas. Vivemos num mundo cuja sociedade está de caixa fechada para a libertação artística e tolerância. 

Entrar na pele de um louco pode levar-nos à loucura também. Houve momentos em que nenhuma de nós tinha controlo sobre as ações, estávamos tão mergulhadas na personagem que deixámos apenas as sensações fluir. 

Agora percebo o conceito de marginalizado. Dá para perceber que hoje em dia, o que é diferente é posto de lado. A mentalidade retrógrada do bairro foi o que mais nos marcou. Como a população do Arco do Cego é mais envelhecida, aceita-se que as ideias que partilham o sejam, também, mas ainda assim… Acho que fomos demasiado atacadas com uma indiferença extrema. Isso marcou-nos, eu acho… Foi o que mais nos marcou. O descontrolo não é aceite, a loucura não é aceite. Nós comportámo-nos como verdadeiras idiotas, sim, mas valeu a pena. Pelo menos eu espero que tenha valido a pena. 

Hoje sinto-me diferente, não sei… Vi pelos olhos do lado que não é o meu, o mundo. Não direi que compreendo na totalidade mas acho que vou percebendo o sentimento de solidão que os excêntricos sentem na pele. Nós somos a população do futuro. Só pretendíamos acordar o bairro, ajudar os habitantes a diminuir o descontentamento com que vivem todos os dias. Porque é que um abanão é tão mal visto por eles, então?





 PROPOSTA #3 (FINAL)


SINOPSE
   Seguindo os perceitos do Dogma 95, “Haverá espaço para nós?” é uma criação do grupo trinta e cinco que estuda o Bairro do Arco do Cego. 
    A sua principal inspiração é o filme de Lars Von Trier, “Os idiotas”.
   Um grupo de pessoas que fingem ter problemas mentais, no sentido de chamar a atenção de uma pequena sociedade que não passa de um povo calado que vive no bairro.
Incomodar quem passa, abordar quem não se conhece, agir descabidamente em qualquer rua, para fazer alguém acordar ou reagir é a principal mensagem que o grupo quer passar. Revelar um pouco do lado idiota de cada um de nós pode muitas vezes ser uma forma bem diferente e interessante de penetrar esta barreira inicialmente vista como intransponível.  Ter uma linha condutora definida por convenções e altas expectativas nem sempre é um bom método para tentar conhecer e entender esta aldeia fechada a sete chaves no meio da grande cidade que é Lisboa.
    O seu nome: “haverá espaço para nós” é a nossa principal dúvida enquanto grupo. A aceitação em tantos núcleos tão diferentes uns dos outros. Num local de extremos contrastes é difícil criar um personagem deficiente mental que se adapte e interprete cenas tão distintas como um idoso sozinho calado que diambula até num grupo de jovens  animados que percorrem a rua num passo rápido. Temos de nos fazer companhia de quem está parado e click de quem passa a voar.
Fazer com que alguém pare só para olhar o que estamos a fazer é criar reação e motivo de interesse nesse alguém. É dizer que estamos revoltados com a atitude de comodidade das pessoas e exigirmos de alguma maneira novas dinâmicas e formas de estar. É manifestarmo-nos contra esta quietude de conformismo que não define o bairro nem como pacato, mas como morto, dominado por estas rotinas monótonas e por este silêncio que incomoda e que quebra o pensamento. Um bairro não é mais do que um local de vida e partilha, onde uma pequena comunidade se entreajuda e se conhece bem, que tem costumes e tradições em comum e principalmente que vive um clima de agitação e de constante movimento no qual as energias de cada um se cruzam, 
fazendo do bairro uma confusão boa. 
   A nossa atitude e mensagem do filme pretendem questionar e colocar em dúvida a falta desses parâmetros de vida.


TEASERS


OBJETO FINAL


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