"Hoje fui ao arco do cego. ainda me pergunto, e irei investigar, o que está na origem deste nome. parando para pensar.. Arco do cego? será que lá morava um senhor conhecido por todos e que não tinha visão? Deixarei esta reflexão para outro momento., depois de investigar o assunto.
Saída do metro diretamente para o chamado jardim do Arco do Cego. Já lá tinha ido várias vezes, é um local de que guardo boas memórias das que ficam depois de tardes intermináveis de copo na mão. Os universitários reúnem-se em grandes grupos, abunda no ar o cheiro a cerveja e não só. É um local de convívio, de descanso, de uma pausa após um dia longo mas que secalhar não foi assim tão cansativo. Eles lá sabem. Sentam-se na relva, nos muros, nas esplanadas ou simplesmente se mantêm de pé. São colegas e provavelmente bons amigos. Eu a trabalhar e eles a beber.
Seguimos em direção ao bairro propriamente dito. Passámos por um café, provavelmente o local com mais afluência naquele loca a seguir à escola. As ruas estão organizadas numa malha ortogonal que resulta numa planta com ruas perpendiculares umas às outras. As habitações são pequenos prédios de 3 ou 4 andares na zona mais central, e vivendas de 2 andares fora da rua principal. Estes prédios referidos são muitas vezes pintados de cor de rosa enquanto as vivendas tomam diversas cores nas suas fachadas, desde brancos a azuis ou até amarelos.
O liceu D. Filipa de Lencastre é o coração do bairro. As crianças e os jovens estão no pátio da escola durante o intervalo, mas este pátio é muito peculiar porque não tem qualquer delimitação, é uma parte integrante do bairro e não necessariamente exclusiva do liceu. Percorremos as ruelas dentro do bairro e deixámo-nos fascinar pela simplicidade dos edifícios e pela irregularidade dos pavimentos, pela solidão e abandono que o bairro transmite se não fossem os gritos de crianças que se ouvem ao fundo. Como se durante o dia toda a gente abandonasse aquele sítio para apenas regressar ao fim de um dia de trabalho exaustivo.
Descemos até à Igreja São João de Deus, que apesar de ser já no limiar, acolhe o bairro do Arco do Cego. Lá falámos com a D. Olga, que trabalha no cartório da igreja e rapidamente se disponibilizou a ajudar-nos. Acabou por ser uma ajuda mútua e fomos imensamente questionadas sobre aspetos relativos ao nosso curso e a faculdade, uma vez que a sua filha se candidatará no início do próximo ano letivo. A D. Olga providenciou-nos de um contacto e em breve agendaremos um dia para falar com vários responsáveis da Igreja de modo a perceber melhor a vivência paroquial dentro do bairro. Certamente que, uma vez que esta igreja se encontra perto de vários bairros, é possível que seja um local “multibairral” se é que posso inventar esta palavra.
De volta ao centro do bairro, procurámos o arquivo da câmara municipal, embora não o tenhamos encontrado à primeira. E que sorte!
Vimos um casal já de idade avançada, a quem perguntamos se sabiam o local que procurávamos. Depois de dois dedos de conversa viemos a saber que o Sr. Zé era não só o fundador e um dos presidentes da escola de artes nas caldas da rainha, mas ainda o introdutor de cursos de design em diversos politécnicos do país! Sabemos onde é a sua casa por isso proximamente irão ter uma visita inesperada nossa!
Já no arquivo…Que mundo! O funcionário foi impecável connosco, disponibilizou-nos vários livros, mapas, projetos, plantas e até um microfilme. Claro que clandestinamente fotografamos inúmeros destes documentos. É realmente incrível, tantos anos de história, tanta riqueza da nossa cidade ali fechada dentro de quatro paredes a apanhar pó..
Almoçámos num café/restaurante perto do Largo do Leão, cujas empregadas não eram muito acolhedoras mas entre si só falavam de “fofocas” da cabeleireira, da amiga, do primo e do tio das outras. Algo me diz que sabem todos os segredos e rumores do bairro!
Passando pelo IST regressámos. Voltarei muito em breve."
palavras de Sofia Grilo, que resumem a visita do grupo até ao bairro em questão.
Domingos sem movimento. 8 de março
O bairro ao fim de semana ganha vida. Ganha pessoas na rua, idosos que passeiam ou conversam numa esquina, jovens que aproveitam o dia de sol para sair à rua, pais que brincam com os filhos, crianças nas suas bicicletas ou trotinetes. Por outro lado, a escola silencia-se. Os gritos e os jogos de futebol durante os intervalos não existem mais, foram para casa descansar. O fim de semana no bairro é um tempo de família e de convívio. O tempo caloroso ajuda, está um sol radiante, um vento agradável, o frio não se sente, o inverno já la vai. O Sr. Zé não estava em casa, talvez tenha ido de fim de semana, para as Caldas da Rainha, quem sabe.
9 de março
Mais uma visita ao "nosso" bairro. Tornam-se cada vez mais frequentes e estamos ainda no início. É curioso como cada vez que lá volto olho de maneira diferente para as coisas. As janelas, as casas, as árvores, as pessoas, a forma como o sol ao logo da tarde incide de maneira diferente nos edifícios e no chão. O bairro tem um encanto indescritível. Como se fosse uma pequena vila no meio de uma cidade. Não é qualquer vila nem qualquer cidade, mas sim o primeiro bairro social de uma fantástica capital europeia, Lisboa. Cada ruela, cada porta, cada sombra. Cada pormenor transmite um pouco da vida do bairro. A simplicidade, a calma, o convívio e a sinceridade. As pessoas no bairro transformam-se, é como se não tivessem pressa, não tivessem preocupações, não tivessem problemas. Eu mesma me sinto assim quando lá vou, alheia à agitação constante da vida urbana. Há moradias tão limpas, pintadas recentemente, arranjadas, cuidadas. Mostram a importância que os moradores dão ao seu bairro, a preocupação por mantê-lo agradável, bonito, apelativo. Mas ainda assim, há casas degradadas, tinta lascada, cores desgastadas pelo tempo, marcas do passar dos anos. É curiosa esta diferença.
Visitámos o edifício da Caixa Geral de Depósitos, que embora esteja já nos limites do bairro, é extremamente importante para a nossa pesquisa e conhecimento do Arco do Cego, como explicaremos no post "A Antiga Fábrica de Cerâmica". Deambulámos pelo bairro, percecionando emoções, luzes, cores, sons. Desenhámos e fotografámos com o objetivo de capturar frações de tempo, embora saibamos que aquele instante captado nunca se irá repetir. Sentámo-nos num café nas traseiras do Arquivo Municipal de Lisboa. Em conversa com os proprietários do estabelecimento, percebemos que era um sítio recente, e portanto não nos sabiam dar muitas informações relativas ao passado do bairro. Ainda assim, conhecemos um grupo de amigos que ali se reuniam para uma conversa e uma(s) cerveja(s) depois do trabalho. Foi-nos indicada a casa de uma senhora, cujo nome ainda não sabemos, que tem 84 anos e vive no bairro desde que nasceu. Hoje vamos falar com ela e tentar perceber um pouco de como surgiu o bairro, para que, como é a vida dos seus moradores agora e como era antes.
20 de março Envolvimento humano era o que procurávamos da ultima vez que visitamos o bairro do arco do cego. A verdade é que tínhamos chegado a um impasse por não encontrarmos gente no bairro. Havia poucas pessoas, poucas características singulares que caracterizassem o bairro. Considerámos que se tratava de um bairro demasiado quieto, calmo, conservador, sem inquietações nem agitações. Elementos que caracterizam tradicionalmente um bairro não existem simplesmente no Arco do Cego, tais como clubes, discussões em comunidade, festas populares, diferenças sociais, lojas, tascas, convívio entre idosos, adultos e jovens ao fim da tarde e à noite. Notámos uma falta de proximidade entre os moradores do bairro: alguns já mais velhos conhecem-se entre si, mas uma vez que se trata de um bairro já antigo, muitos dos habitantes iniciais foram falecendo e deixaram a casa a filhos e netos ou venderam-na, sendo que os novos proprietários vão deixando de conhecer a vizinhança e assim se foi criando uma distancia maior ao longo dos anos. A verdade é que o bairro do arco do cego, tendo tanto potencial, acaba por ser uma zona plana e isolada no meio duma cidade tão dinâmica. De modo a confirmar rejeitar esta opinião que tínhamos do bairro, entrevistamos várias pessoas de diferentes idades, moradores oi trabalhadores do arco do Cego.
O café Barrosã
No café Barrosã, uma antiga mercearia à entrada do bairro de quem vem do Largo do Leão, falámos com dois empregados. José Lopes trabalha no estabelecimento há 32 anos. Desde que se lembra, o Arco do Cego sempre foi um bairro tranquilo e demasiado pacato, todos se conhecem, parece uma aldeia no meio da cidade. Diz que é um bairro onde as pessoas apenas vêm descansar e dormir, todos trabalham fora e à noite é um autêntico deserto. Os poucos conflitos que existem são relacionados com a juventude do liceu, mas devido à presença quase constante da polícia, são raras as agitações. “É um bairro onde não se passa nada, não gosto dele por isso mesmo.” Este senhor falou-nos do dinamismo, por oposição, do bairro onde mora, Campo de Ourique.
A Dona Olga trabalha há 30 anos neste café e também confessou não gostar particularmente do bairro, não há comércio, hoje as pessoas não se conhecem mas antes era como uma família. Os moradores saem de manhã e voltam à noite. O café é frequentado tanto por moradores idosos que continuam a vir como por novos residentes, mas principalmente por trabalhadores dos arredores do bairro. Ainda assim, há idosos que não saem de casa, e os jovens passeam pouco. Ao sábado e domingo é um deserto, está vazio. Ainda assim, D.Olga diz que ainda há gente nova e esperança em novas ideias.