A antiga fábrica de cerâmica Descobrimos que no Arco do Cego havia, em tempos, uma Fábrica de Cerâmica. Sendo este um bairro social, poderia ter tido a função de servir de habitação aos operários da fábrica. Assim, decidimos investigar um pouco sobre esta fábrica, tanto na internet como no terreno.
“(…) em 1890 Sylvan Bessière e Marie Therèse Bessière, fundaram a “Fábrica de Cerâmica Bessière”, perto do Matadouro em Picoas, dedicava-se ao fabrico de telha “Marsella”, tijolos, talhas para água, manilhas e vasos. Em 1905 transferiu as instalações para o Campo Pequeno, ao lado do Palácio das Galveias, já que os terrenos eram ricos em barro (…). Em Maio de 1929 foi inaugurada, no Arco do Cego, (..) a nova sede da “Companhia da Fábrica de Cerâmica Lusitânia SARL”, projetada pelo engenheiro Luís Ernesto Roqueira. Aí ficaram instalados os balcões de vendas, escritórios da direção, contabilidade, salas de exposição de azulejos e finalmente na mansarda, o laboratório de química e engenharia, os atelier de pintura industrial e pintura artística. (…) A crise de 1929 não afetou as finanças da empresa, que entrou numa fase de enorme expansão e comprou fábricas falidas por todo o país. (…) Nos finais dos anos 70 do séc. XX, esta Companhia encerrou e ficou abandonada até que a Caixa Geral de Depósitos adquire os terrenos e as respetivas instalações para aí erguer o seu novo edifício-sede. (…) A primeira empreitada de movimentação e contenção de terras, iniciou-se em outubro de 1987, e a inauguração teve lugar em 11 de outubro de 1993.”
Assim percebemos que a indústria da cerâmica é um negócio já antigo em Portugal e que sofreu diversas alterações a nível de localização, proprietários e até de produção. Apenas em 1929 foi inaugurada a Fábrica no Arco do Cego. A construção deste bairro foi iniciada em 1918 e a inauguração foi em 1935, portanto quando o bairro foi inaugurado já a fábrica funcionava há 6 anos.
Descobrimos ainda que no edifício da Caixa Geral de Depósitos (CGD) há ainda uma chaminé de um forno da antiga fábrica, o certamente despertou em nós a curiosidade de fazer uma visita a este local.
Durante uma ida ao nosso bairro fomos até à sede da Caixa Geral de Depósitos. Falámos com uma funcionária acerca do nosso objetivo, embora tenha sido uma conversa desmotivadora pois foi-nos dito que para visitar a chaminé teríamos de enviar um email a entidades responsáveis, e que uma vez que se tratava de uma visita privada era um processo complicado e pouco possível. No entanto, decidimos espreitar o jardim da sede, e percebemos que é permitido ver bem de perto esta chaminé de uma ponte sobre o jardim. A chaminé, antiga, suja e com marcas do tempo, contrasta com a modernidade e verticalidade do prédio. Documentámos fotograficamente a nossa conquista, e rapidamente reparámos que ao lado da CGD existe mais uma chaminé, mais alta que a anterior, e que possivelmente pertencia ainda à fábrica de cerâmica.
Diário de Lisboa anuncia a inauguração do bairro do Arco do Cego
Título: Diário de Lisboa Directores: Director: Joaquim Manso Pasta: 05760.024.05671
Número: 4420 Ano: 14 Data: Domingo, 10 de Março de 1935 Tipo de Documento: Imprensa Diária Fundo: DRR - Documentos Ruella Ramos Periódicos / Diário de Lisboa / 1935
Um cego que nunca existiu, um texto de António Mendes Nunes:
"Conhece-se a origem de todos os nomes de ruas, becos, largos e sítios de Lisboa, menos do Arco do Cego. Não há documentos ou escritos que nos desvendem o mistério. Quem foi o cego que deu origem ao nome, ou se não houve cego nenhum, ninguém sabe. Sabe-se, isso sim, que desde o século 17 a designação Arco do Cego englobava uma vasta zona, com uma estrada do mesmo nome que começava mais ou menos no local onde hoje está o edifício da Polícia Judiciária, na Rua Gomes Freire, e terminava no Campo Pequeno, compreendendo toda a região que hoje vai da Avenida Defensores de Chaves até ao Instituto Superior Técnico e Praça de Londres. A origem do arco entende-se, pois por aí andavam os limites urbanos do concelho e haveria um arco com uma porta onde se pagariam os impostos da entrada de mercadorias na cidade. Do "cego" é que já é mais complicado.Na Lisboa antiga eram normalmente os proprietários dos sítios que lhes davam o nome e se tivesse havido um cego, por deficiência ou por alcunha, seria mencionado em algum lado, em algum documento, em alguma escritura. Mas não há nada. Assim sendo, parece- -me que o nome virá de "Arco Cego", isto é, com fraca visibilidade, apertado. E era tão apertado que um dia, no Verão de 1742, quando se planeou a ida de D. João V a águas para as Caldas da Rainha, e verificando-se que nele não passava o coche real, o arco veio abaixo? Por ironia do destino, sua majestade acabou por tomar outro caminho na saída da capital."
"O Bairro Social do Arco do Cego foi encomendado na I República pelo Ministério do Trabalho, datando o seu projecto inicial de 1919. A fase de projecto contou com o risco de arquitectos como Adães Bermudes, Frederico Caetano de Carvalho e Edmundo Tavares. Inicialmente vocacionado para bairro operário, a sua construção passa para a gestão da Câmara Municipal, a partir de 1927, sendo transformado num bairro habitacional para a pequena burguesia de serviços e principalmente para funcionários camarários. A edificação do bairro ficou concluída em 1935. Delimitado da restante malha urbana pelas Ruas do Arco do Cego e D. Filipa de Vilhena a O., Rua Xavier Cordeiro a S., Rua Brás Pacheco a E. e Rua Brito aranha a N., encontra-se organizado dentro de um rectângulo e orientado segundo eixos ortogonais, com 45 quarteirões rectangulares e uma disposição de tipo simétrico, exibindo a eixo a Av. Magalhães Lima. Traduzindo uma arquitectura civil eclética, assume grande valor pela diversidade das propostas arquitectónicas e pelas várias tipologias de habitação. É constituído pela edificação contínua de blocos quadrangulares de 2 e 3 pisos, assim como de bandas geminadas de habitações unifamiliares de 2 pisos. No início da década de 30 do séc. XX, aí foi construído o primeiro equipamento escolar modelar modernista da capital. O projecto inicial, da autoria do arq. Jorge Segurado, datado de 1932, previa a construção de uma grande escola primária, no entanto, em 1938, o Plano do Estado Novo para edificar 13 liceus ordenou que fosse elaborado um projecto de adaptação da escola primária a liceu, com o objectivo de aí ser instalado o Liceu D. Filipa de Lencastre, cuja obra viria a estar concluída em 1940. De planta simétrica, o jogo de volumes do edifício alia o racionalismo do programa ao ecletismo do bairro que o envolve."
Blimunda Sete-Luas no Arco do Cego
Após mais um encontro com este azulejo, o grupo de trabalho questionou-se, mais uma vez, de quem seria o artista plástico que pintara o mesmo, e qual o seu significado.
Com o zoom de uma máquina fotográfica captámos a assinatura, no azulejo, e conseguimos retirar de lá o apelido, sem problemas, "Ribeiro". Mais complicado foi perceber o primeiro nome, mas logo conseguimos perceber que se tratava do artista plástico Rogério Ribeiro (1930-2008).
Rogério Ribeiro foi, como está acima escrito, um artista plástico, que estudou pintura na (atual) Faculdade de Belas-Artes, em Lisboa.Foi sócio-fundador daGravura – Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses(em 1956), onde desenvolveu intensa actividade como gravador. Desenvolveu também trabalhos na área do design gráfico, no desenrolar da sua vida. Foi também fundador da primeira Galeria Municipal de Arte em Almada e também responsável pelo projecto Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea, um dos principais pólos culturais do concelho de Almada.
Em relação ao azulejo, após uma intensa pesquisa sobre o mesmo, pesquisa essa sem grandes frutos, apercebemo-nos que a figura feminina que está pintada no azulejo se trata de Blimunda Sete-Luas, personagem de uma das mais famosas obras de José Saramago.